Há algum tempo, me vi tomado de um pseudosentimento por alguém muito diferente de mim. Depois de poucas semanas, o castelo ruiu - areia fina. Olhando para trás, percebo que nada fora além de uma expectativa de felicidade. O tipo de coisa que a gente inventa para testar nossa carne, para saber se ainda respiramos, para nos certificar se as dores passadas foram capazes de desumanizar tudo. Nesse meio tempo, minha existência foi interceptada por outra. Alguém que de maneira rápida, mas consciente, foi capaz de me pôr num patamar de destaque e dizer com os olhos, lavrados de algumas decepções e muitos sofrimentos, "olha, você é importante / estou aqui / eu te admiro". Tudo isso sem a necessidade de dizer sequer uma única palavra. Li, num dos muitos textos do Caio Fernando Abreu, algo do tipo "Fico muito feliz toda vez que encontro alguém tão confuso quanto eu". Retomo esse fio de discurso para dizer que fico muito feliz quando encontro alguém tão esperançoso quanto eu. Sim, esperança. Amor é esperança. A gente espera, anseia e grita por dentro. A gente pede a Deus que esse outro ser, que nos toma por completo, seja fiel, companheiro, íntegro, digno, verdadeiro...dentre outras prerrogativas que construimos ao longo dos anos e que enfeitam nosso imaginário coletivo sobre o amor. A gente espera que o momento seja eterno. Que a felicidade dure, pra sempre de preferência. Que os violinos toquem incessantemente. Que hajam flores intermináveis. Cheiros sempre ternos. Toques suaves. Noites de sexo quente. E todas essas coisas que acariciam os pensamentos daqueles que, embora já tenham chorado muito e comido o pão que o diabo amassou, pisou e cuspiu, ainda acreditam que o amor é possível, é paupável e o mais drástico: que ele não é capitalista. Eu sou suficientemente bobo - admito - para dizer que tenho esperança no amor. Pago para ver. Faço minhas apostas. Rezo. Mando oferendas. Do my best. I do believe in love. I do believe in you and me.
As palavras aconpanham nossa existência, elas nos permeiam, nos cercam, nos salvam e nos matam na mesma intensidade. Lucila Nogueira diz que "escreve para exorcisar fantasmas", Dickinson, por sua vez, diz que "os Poetas acendem Lâmpadas - mas eles próprios - se apagam". Escrever/ler é sempre um escapismo, uma segunda chance, um lapso no vácuo onde podemos recomeçar. Espero que, nessas esquinas virtuais, possamos, segundo o Caio Fernando Abreu, decifrar nossa própria paisagem interna.