"Veja bem
É o amor agitando meu coração
Há um lado carente dizendo que sim
E essa vida da gente gritando que não"
Há um lado carente dizendo que sim
E essa vida da gente gritando que não"
Muitas coisas me entristecem nessa cidade ou poderia recomeçar e dizer: Muitas coisas me deixam furioso nessa cidade. A falta de polidez das pessoas e a total ineficiência do sistema de transporte público coletivo são, dentre as coisas que me emputecem, as que ultimamente mais me incomodam. Comprar um carro sempre me pareceu índice de ascensão social, hoje vejo como condição sine qua non de preservação de minha saúde mental. Dia desses, depois de minutos intermináveis de espera, de dois ônibus e uma integração, enquanto divagava comigo mesmo com a cabeça encostada no vidro sujo do ônibus, ouço de longe um burburinho que soava ligeiramente familiar. Quando volto do meu abissal de contas pra pagar e planos a executar, inclino a cabeça para o corredor e, para minha surpresa, às 7h da martina, vejo: um menino mal-saído da adolescência, barba por fazer, calça xadrez, camisa verde e um ar sereno de esperança. De sua boca, Maria Bethânia saia toda densa. Cabelos esvoaçantes e pés descalços como de costume. Ela sussurrava como numa prece: São tantas coisinhas miúdas / roendo, comendo / arrasando aos poucos / com o nosso ideal". Fiquei completamente embasbacado ao perceber que no meio de tantos chineses estridentes gritando coisas como Tarrachinha e a Posição da Rã nessa cidade Bethânia ainda vive. Isso me fez lembrar do grande escritor gaúcho Caio Fernando Abreu quando genialmente diz que ainda é possível plantar morangos nesse solo de concreto. É uma pena que nossos irmãos chineses ainda não possam clonar seres humanos, contrário fosse eu faria um apelo a Presidenta Dilma, que está por lá essa semana, para interceder em favor da diminuição das exportações de aparelhos-celulares-neuróticos-e-gasguitos e a implementação da produção em larga escala de clones do menino de calça xadrez que canta Bethânia e não se deixa abater pelos palavrões, pelas rãs, nem pelo empurra-empurra dos ônibus superlotados dessa cidade. Queria ser como aquele menino, mas já desisti: Bethânia comigo só vai cantar com vidro fumê e ar-condicionado (e direção hidráulica se couber no financiamento!).
Driko Andrade
Recife, 11 de abril de 2011.