Capítulo II - Vestido Novo
D. Amélia era uma forte candidata a primeira santa do país. Viúva de dono de engenho. Tinha saudades da época em que podia chicotear os negrinhos pela vontade de Deus. Assistiu de camarote o nascimento de Norma Jeane. Segurou-a pelos pés, levantou um pouco a cabeça, olhou devagar aquela pobre criatura banhada de sangue, ponderou alguns instantes e sem maiores ensaios disse - "Eu fico com ela!". A Paróquia toda orgulhosa vestiu-se de aplausos e elogios à D. Amélia - uma santa, todos diziam. Foi assim que Norma Jeane foi morar na Várzea. Era um bairro há poucos km do centro da cidade, casarões antigos, praças cheias de árvores, famílias de nome e um ar pesado de progresso por conta do projeto de construção de uma universidade nas redondezas - coisa que D. Amélia odiava. Norma Jeane crescia lenta. Suas pontas e arestas eram cuidadosamente aparadas todos os dias pelas mãos trêmulas de D. Amélia. Norma Jeane dormia num quartinho no fundo do quintal da casa. Tudo ali cheirava a velho. D. Amélia, o casarão com eira e beira, os cristais, os azulejos portugueses, os retratos na parede, Norma Jeane. Além das duas, o casarão abrigava o Velho Jorge. Empregado mestiço da época em que o marido de D. Amélia andava a cavalo, caçando as filhas dos empregados do engenho. Quando Norma Jeane fez 7 anos, D. Amélia a levou pela primeira vez numa costureira - D. Zefinha de Palmares. Nunca até aquele momento Norma Jeane havia vestido uma roupa nova. D. Amélia era super ecológica, reciclava tudo. Norma Jeane encheu o rosto-magro de vermelho e improvisou um sorriso quando viu D. Zefinha coberta de tecidos e fitas coloridas. Já podia se imaginar correndo entre os pés de jambo, embolando nas folhas caídas dos ipês-amarelos, com seu vestido branco, delicadamente ornado de fitas de cetim dourado, as mesmas fitas que delicadamente iriam também prender os cabelos desgrenhados. Enquanto isso, D. Amélia tirava um retalho de chita preta da bolsa e dava as instruções para D. Zefinha - "Quero isso pronto até sexta viu, Zefinha? Essa menina tem que estar decente quando Nequinho chegar". "Pode deixar", respondeu Zefinha, "Vai ficar uma empregadinha linda". "Acho bom mesmo. Até sexta!". "Até".
