Há algum tempo, me vi tomado de um pseudosentimento por alguém muito diferente de mim. Depois de poucas semanas, o castelo ruiu - areia fina. Olhando para trás, percebo que nada fora além de uma expectativa de felicidade. O tipo de coisa que a gente inventa para testar nossa carne, para saber se ainda respiramos, para nos certificar se as dores passadas foram capazes de desumanizar tudo. Nesse meio tempo, minha existência foi interceptada por outra. Alguém que de maneira rápida, mas consciente, foi capaz de me pôr num patamar de destaque e dizer com os olhos, lavrados de algumas decepções e muitos sofrimentos, "olha, você é importante / estou aqui / eu te admiro". Tudo isso sem a necessidade de dizer sequer uma única palavra. Li, num dos muitos textos do Caio Fernando Abreu, algo do tipo "Fico muito feliz toda vez que encontro alguém tão confuso quanto eu". Retomo esse fio de discurso para dizer que fico muito feliz quando encontro alguém tão esperançoso quanto eu. Sim, esperança. Amor é esperança. A gente espera, anseia e grita por dentro. A gente pede a Deus que esse outro ser, que nos toma por completo, seja fiel, companheiro, íntegro, digno, verdadeiro...dentre outras prerrogativas que construimos ao longo dos anos e que enfeitam nosso imaginário coletivo sobre o amor. A gente espera que o momento seja eterno. Que a felicidade dure, pra sempre de preferência. Que os violinos toquem incessantemente. Que hajam flores intermináveis. Cheiros sempre ternos. Toques suaves. Noites de sexo quente. E todas essas coisas que acariciam os pensamentos daqueles que, embora já tenham chorado muito e comido o pão que o diabo amassou, pisou e cuspiu, ainda acreditam que o amor é possível, é paupável e o mais drástico: que ele não é capitalista. Eu sou suficientemente bobo - admito - para dizer que tenho esperança no amor. Pago para ver. Faço minhas apostas. Rezo. Mando oferendas. Do my best. I do believe in love. I do believe in you and me.
As palavras aconpanham nossa existência, elas nos permeiam, nos cercam, nos salvam e nos matam na mesma intensidade. Lucila Nogueira diz que "escreve para exorcisar fantasmas", Dickinson, por sua vez, diz que "os Poetas acendem Lâmpadas - mas eles próprios - se apagam". Escrever/ler é sempre um escapismo, uma segunda chance, um lapso no vácuo onde podemos recomeçar. Espero que, nessas esquinas virtuais, possamos, segundo o Caio Fernando Abreu, decifrar nossa própria paisagem interna.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
És estranho
E te ver novamente não me causou nenhuma emoção. És estranho. Completamente desconhecido de meu amálgama de coisas-vivas. Se durante aquele tempo, fostes dor e gritavas feito louco aqui dentro, agora, já não és mais que sussurro baixinho, quase não se escuta. És estranho. Embora teu rosto tenha permanecido inalterado, já não simbolizas tanto amor e devoção que outrora arrastastes de mim. És estranho. Os headphones continuam lá, mas eu me pergunto: ainda ouves as mesmas melodias que conquistaram minha alma? És estranho. E se ouves, seriam ainda encantadoras como foram? És estranho. Depois de tanto tempo, percebo que teu caminho é o mesmo, que o branco ainda escancara tua cara doce e ainda assim - és estranho. Estarás indo pra algum lugar que eu já não soubesse? Estarás voltando do lugar que eu desde antes sei? És estranho. Fostes sempre. És estranho. E continuarás.
Driko Andrade
Recife, 19 de outubro de 2010.
domingo, 17 de outubro de 2010
Farol Aceso
Ao som de Jana FigarellaTento ser autobiográfico
Mas descubro lento
Que a vida é encruzulhada do tempo
e você é meu farol
Aceso nessa madrugada
Para onde dirijo meu olhar?
Se é a tua luz que me ofusca os sentidos
Deixando-me inerte à espera desse ancoradouro
Para onde irão as minhas mãos?
Se é teu corpo que me mata denso
Quando devagar acaricio essas costas mornas
Para onde caminham minhas pernas longas?
Se és estrada, calçada e rua
Fazendo-me cativo voluntário amarrado ao teu destino
Tento ser autobiográfico
Mas descubro lento
Que a vida é encruzulhada do tempo
e você é meu farol
Aceso nessa madrugada
Driko Andrade
Recife, 17 de outubro de 2010.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Para consertar um coração partido
Ao som de "Palavras do Coração" de Bruna Caran
Para consertar um coração partido, não há receita nem remédio. Um coração partido não pode ser colado, costurado ou refeito. Um coração partido só pode ser sentido. Ele só quer ser abraçado. Pegue-o com mãos firmes, porém suaves. Leve-o para perto do peito e aqueça-o com o sorriso mais brilhante que souberes dar. Não fales nada. Um coração partido não tem ouvidos, só pranto - desesperado & rouco. Um coração partido não quer ser consolado. Quer apenas ser amado. Para consertar um coração partido, somente outro coração também partido.
Driko Andrade
Recife, 14 de outubro de 2010.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Paisagens Internas
Para ler ao som de Marina Lima
Recife, 08 de outubro de 2010.
Driko Andrade
Ávido, depois de um gole intenso de ar puro, retorno à vida, como quem brinda às escuras sobre um pretexto qualquer. Fazia um bom tempo desde a última vez que me sentira assim: despido & entregue ao desconhecido. Será esse o start tão de longe esperado? Pensava, enquanto digitava lento sobre os teclados negros. Mãos trêmulas, pensamentos caiados de branco, como uma casinha simples à beira da estrada-agreste. Quando a espera é longa, o encontro é urgente e cheio de clichés: suores frios, borboletas no estômago, palavras enviezadas pelo medo do erro e da fuga. A partir daqui, já não sou capaz de me esquivar de você. Já não posso querer outra coisa que não o seu beijo, o seu toque e o seu queixo. Adentro nesse labirinto coberto de emoções e, voraz, me lanço ao teu destino e à tua vontade. Tudo torna-se mais simples e por isso mesmo mais complicado aqui dentro, nessa minha paisagem interna cheia de senhas, combinações, alarmes, trancas, segredos, sensores de movimento, câmeras em high definition e tudo o mais que o tempo encarregou-se de construir nesse roteiro denso, ambientado por tramas complicadas e personagens difíceis. Então, para não parecer mais hermético do que o de costume, tento, na busca de algum sucesso, ser mais direto:
Não podias ter chegado em hora mais oportuna, o teu sorriso pagou o resgate, me libertou do cativeiro que por anos fui forçado e estar. Sou teu servo, devo-te a minha vida, posto que me salvaste. Não quero ser somente compania, quero que tenhas urgência de mim, assim como tenho de ti. Quero encontros cheios de expectativa que nunca serão frustradas, quero ser exatamente o que precisas, quero que me olhes com olhos cheios de ternura, que me pegues suave pelas mãos e me conduzas rumo ao inesperado, pois sei que contigo estarei seguro, mesmo quando o tempo se fechar e ouvirmos de longe o barulho estrondante que vem do céu. Quero que me beijes com tanta vontade que os segundos sejam eternos como a luz. Quero que tenhas uma saudade louca de mim, que não consigas pensar em outra coisa a não ser o meu nome e os meus gestos. Quero tanto, mas tanto, que sou capaz de rezar a todos os deuses desse ou de qualquer outro país.
Depois de tanto ensaio, arranco o telefone da mesinha de cabeceira e digito rápido teu número. Nervoso, espero me atenderes com a voz doce que é capaz de me alentar dos medos mais duros. Três ou quatro toques depois, responderás manso e cheio de amor "Alô". Jogo no chão o texto que tão cuidadosamente preparei pensando em ti, pensando em nós. E simplesmente digo: "Eu te amo".
Recife, 08 de outubro de 2010.
Driko Andrade
Aqui
Para Rafaela Barbosa, que sabe me ler como ninguém.
Para ler ao som de “A paz”, na voz de Zizi Possi.
Aqui o tempo não avisa
Caminha devagar como quem nada quer
Aqui o tempo é ar
Levíssimo enquanto submerge o amor
Aqui o tempo é dor
Que, impune, agoura o devir
Aqui o tempo é
Sem palavras, nem cor
Aqui somente se espera
Sobre as malas, com passagens em punhos
Aqui não há encontro
Encruzilhada perdida ao pé da montanha
Aqui você é sempre falta
Escondida, pulsas por baixo dos casacos
E de todas as peles
Aqui não há ligação
Apenas fio leve, trepidante sob o solo antigo
Aqui o tempo é urgência
Vai passar, vai passar...
Aqui sou eu agora
Voz rouca, pensamento vadio, pés descalços
Aqui é passageiro
Volto logo, volto, me espera
Amém
31 de Agosto de 2010
Driko Andrade
Para ler ao som de “A paz”, na voz de Zizi Possi.
Aqui o tempo não avisa
Caminha devagar como quem nada quer
Aqui o tempo é ar
Levíssimo enquanto submerge o amor
Aqui o tempo é dor
Que, impune, agoura o devir
Aqui o tempo é
Sem palavras, nem cor
Aqui somente se espera
Sobre as malas, com passagens em punhos
Aqui não há encontro
Encruzilhada perdida ao pé da montanha
Aqui você é sempre falta
Escondida, pulsas por baixo dos casacos
E de todas as peles
Aqui não há ligação
Apenas fio leve, trepidante sob o solo antigo
Aqui o tempo é urgência
Vai passar, vai passar...
Aqui sou eu agora
Voz rouca, pensamento vadio, pés descalços
Aqui é passageiro
Volto logo, volto, me espera
Amém
31 de Agosto de 2010
Driko Andrade
Três Letras e Apenas Uma Vogal
Para JWA
“Às vezes eu quero chorar
Mas o dia nasce e eu esqueço
Meus olhos se escondem
Onde explodem paixões
E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar”.
Alvin L.
Ao som de Jewel
Quando olho pra você tenho apenas pena, ou menos que isso. Algo completamente irrotulável e indizível. Não que seja grande e não caiba em palavras não é isso não, mas é que de tão mínimo, de tão irrisório não caberia sequer numa mínima ascensão de um fonema qualquer que porventura saísse da minha boca. O que quero dizer, aliás o que não quero dizer mas sou obrigado pelo seu spectro que me acorda nessas manhãs cinzentas de julho, é que de toda forma você passou. Passou como um pássaro feio que ronda as janelas alheias que chega e parti sem o menor esforço ou dignidade. Não, não é raiva não. Como disse, de nada sei sobre teus inconstantes paradoxos sei apenas das nuances de minhas carências entorpecidas de cigarro e cerveja. Mesmo que tuas inicias estejam cravadas em meu peito aberto lavrando cicatrizes de sangue e musgo, nem me lembro mais de teu nome. Desse nome de monstro branco que por tantas vezes me tomou o espaço e me confundiu os sentidos, só restaram três letras banais e apenas uma vogal. Tem coisa mais chata que uma sigla cheia de consoantes? Te enquadro numa caixinha de guardar jóias feita de papel, papel barato por assim dizer, frágil e feia na sua total descartabilidade. Uma sigla pobre, cheia de consoantes que nada fazem desacompanhadas, mas que se vale de uma única vogal para existir-se assim lúdica, bonita, auto-suficiente, doce até, mas cercada de consoantes pra sempre.
Recife, 15 de Julho de 2006.
Driko Andrade.
“Às vezes eu quero chorar
Mas o dia nasce e eu esqueço
Meus olhos se escondem
Onde explodem paixões
E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar”.
Alvin L.
Ao som de Jewel
Quando olho pra você tenho apenas pena, ou menos que isso. Algo completamente irrotulável e indizível. Não que seja grande e não caiba em palavras não é isso não, mas é que de tão mínimo, de tão irrisório não caberia sequer numa mínima ascensão de um fonema qualquer que porventura saísse da minha boca. O que quero dizer, aliás o que não quero dizer mas sou obrigado pelo seu spectro que me acorda nessas manhãs cinzentas de julho, é que de toda forma você passou. Passou como um pássaro feio que ronda as janelas alheias que chega e parti sem o menor esforço ou dignidade. Não, não é raiva não. Como disse, de nada sei sobre teus inconstantes paradoxos sei apenas das nuances de minhas carências entorpecidas de cigarro e cerveja. Mesmo que tuas inicias estejam cravadas em meu peito aberto lavrando cicatrizes de sangue e musgo, nem me lembro mais de teu nome. Desse nome de monstro branco que por tantas vezes me tomou o espaço e me confundiu os sentidos, só restaram três letras banais e apenas uma vogal. Tem coisa mais chata que uma sigla cheia de consoantes? Te enquadro numa caixinha de guardar jóias feita de papel, papel barato por assim dizer, frágil e feia na sua total descartabilidade. Uma sigla pobre, cheia de consoantes que nada fazem desacompanhadas, mas que se vale de uma única vogal para existir-se assim lúdica, bonita, auto-suficiente, doce até, mas cercada de consoantes pra sempre.
Recife, 15 de Julho de 2006.
Driko Andrade.
Aquela Noite
Porque no espelho os monstros sempre se mostram.
Cheguei às 9 depois de uma Sessão de Arte enfadonha e uma costumeira companhia não menos chata. O banho frio e o café morno de sempre antes de deitar e fugir novamente – digo, tentar. Estava fria aquela noite – não porque estivesse chovendo ou algo parecido, não porque as outras eram quentes, mas de algum modo, por uma razão inexplicavelmente invulgar estava mais fria que o de costume aquela noite. Preciso trocar os lençóis, penso num mesmo instante que vem à tona, em meio a devaneios desconexos, que ainda é segunda. Mas o que importa se todos os dias eram segundas agora, até mesmo os, como dizem, domingos quando não preciso fingir parecem segundas e já faz algum tempo isso. O cheiro de cânfora queimando no ar parecia tornar o tempo ainda mais gelado e um pouco mais real. Só então a lembrança da noite passada me chega forte como uma seta guiada direto ao ego ainda aceso. O Monstro Branco me visitou 3 vezes a noite passada. Ele – a dupla-face da inexistência de qualquer verdade. Ele – a beleza imunda de toda uma superficialidade pulsante. Ele – com sua grande máscara cintilante tão pregada ao rosto quanto a própria pele. Ele – o grande vazio que permeia uma mente de Etiquetas Sublinhadas e Melodias Fáceis. Ele – o Monstro Branco. Seu sorriso branco (talvez mais ainda que seu corpo grande, belo e completamente branco) espelhando meu rosto frágil e sutil como a moldura de um quadro famoso que ninguém presta atenção. Meus detalhes ricos em perfeição mesmo aparentes nunca se mostram à primeira olhada. Seu hálito de Monstro branco e quente na minha nuca fria tentando imprimir sua marca de besta e sugar de mim o precioso néctar de seu desejo, o líquido vital em que atordoa sua sede branca. Seus olhos de índigo profundo e cortante atirando porções de vidro quebrado sobre mim enquanto me contorce em suas mãos trêmulas e brancas. Seus cabelos em chamas percorrem a superfície de minhas costas nuas como quem procura o preciso X num mapa antigo. Tento desesperadamente me libertar de seu cativeiro, mas seus braços são mais fortes e mais brancos que os meus. A batalha estaria sempre perdida, o Monstro Branco sabe exatamente como me apanhar, mesmo que me enterre nas trincheiras mais profundas da alma ele sempre sabe onde me escondo e quase sem nenhum esforço me mantém preso ao seu Destino. Sua boca vermelha entornada por sulcos milenarmente intactos e brancos me espreita de lado e aguarda o amolecer completo de meu corpo esguio, até que possa me engolir por inteiro. Até que possa me digerir de uma única vez várias vezes sem nenhuma pausa. E então me vomite do seu seio aberto e branco e me plante novamente aos pés de sua enorme Sombra Branca. O pequeno marca 11, o médio teso em 12 e o maior em algum ponto entre 1 e 2. Uma hora para a primeira segunda terminar, uma hora para a segunda começar. Acho que Ele não virá hoje. Sua sede morta deve ressuscitar seis vezes antes da Lua Cheia, então borbulhando ele acorda e vem a mim como um predador nato e hostil e branco. Deitado de bruços sobre os braços, sei que amanhã é segunda, que é preciso fingir novamente, que o Monstro Branco dorme em silêncio, mas me espera ao anoitecer.
Recife, segunda-feira, 24 de Outubro de 2005
Driko Andrade.
Cheguei às 9 depois de uma Sessão de Arte enfadonha e uma costumeira companhia não menos chata. O banho frio e o café morno de sempre antes de deitar e fugir novamente – digo, tentar. Estava fria aquela noite – não porque estivesse chovendo ou algo parecido, não porque as outras eram quentes, mas de algum modo, por uma razão inexplicavelmente invulgar estava mais fria que o de costume aquela noite. Preciso trocar os lençóis, penso num mesmo instante que vem à tona, em meio a devaneios desconexos, que ainda é segunda. Mas o que importa se todos os dias eram segundas agora, até mesmo os, como dizem, domingos quando não preciso fingir parecem segundas e já faz algum tempo isso. O cheiro de cânfora queimando no ar parecia tornar o tempo ainda mais gelado e um pouco mais real. Só então a lembrança da noite passada me chega forte como uma seta guiada direto ao ego ainda aceso. O Monstro Branco me visitou 3 vezes a noite passada. Ele – a dupla-face da inexistência de qualquer verdade. Ele – a beleza imunda de toda uma superficialidade pulsante. Ele – com sua grande máscara cintilante tão pregada ao rosto quanto a própria pele. Ele – o grande vazio que permeia uma mente de Etiquetas Sublinhadas e Melodias Fáceis. Ele – o Monstro Branco. Seu sorriso branco (talvez mais ainda que seu corpo grande, belo e completamente branco) espelhando meu rosto frágil e sutil como a moldura de um quadro famoso que ninguém presta atenção. Meus detalhes ricos em perfeição mesmo aparentes nunca se mostram à primeira olhada. Seu hálito de Monstro branco e quente na minha nuca fria tentando imprimir sua marca de besta e sugar de mim o precioso néctar de seu desejo, o líquido vital em que atordoa sua sede branca. Seus olhos de índigo profundo e cortante atirando porções de vidro quebrado sobre mim enquanto me contorce em suas mãos trêmulas e brancas. Seus cabelos em chamas percorrem a superfície de minhas costas nuas como quem procura o preciso X num mapa antigo. Tento desesperadamente me libertar de seu cativeiro, mas seus braços são mais fortes e mais brancos que os meus. A batalha estaria sempre perdida, o Monstro Branco sabe exatamente como me apanhar, mesmo que me enterre nas trincheiras mais profundas da alma ele sempre sabe onde me escondo e quase sem nenhum esforço me mantém preso ao seu Destino. Sua boca vermelha entornada por sulcos milenarmente intactos e brancos me espreita de lado e aguarda o amolecer completo de meu corpo esguio, até que possa me engolir por inteiro. Até que possa me digerir de uma única vez várias vezes sem nenhuma pausa. E então me vomite do seu seio aberto e branco e me plante novamente aos pés de sua enorme Sombra Branca. O pequeno marca 11, o médio teso em 12 e o maior em algum ponto entre 1 e 2. Uma hora para a primeira segunda terminar, uma hora para a segunda começar. Acho que Ele não virá hoje. Sua sede morta deve ressuscitar seis vezes antes da Lua Cheia, então borbulhando ele acorda e vem a mim como um predador nato e hostil e branco. Deitado de bruços sobre os braços, sei que amanhã é segunda, que é preciso fingir novamente, que o Monstro Branco dorme em silêncio, mas me espera ao anoitecer.
Recife, segunda-feira, 24 de Outubro de 2005
Driko Andrade.
Três Paus Mandados
“I wake up this morning, baby
The blues was pouring out of me
Nobody knows, nobody sees”.
Jean-Jeaques Goldman.
Ao som de Billie Hollyday
De lado, sobre o braço direito e olhos fixos no branco desbotado e úmido, sem a menor inspiração e uma enorme dor-de-cabeça conseqüência não sei se do vinho de ontem á noite, da mesmice cotidiana ou dos inúmeros sonhos que tive esta madrugada. Se bem que, na verdade, eu nem sei se foram inúmeros ou se foi apenas um de alcalina duração – a gente nunca sabe de tamanhos ou números não é mesmo? Pelo menos as gentes que nem a gente nunca sabem. Falando em sonhos, aliás, escrevendo sobre sonhos, me dei conta que fazia um tempo que não me lembrava assim com essa nitidez (por sinal chatíssima) de ter tido uma noite assim banhada a sonhos perpendiculares. Mas voltando, voltando não porque nem comecei a dizer ainda, começando a dizer, sim agora tá mais apropriado, começando a dizer eu acordei muito indignado com Freud se não fosse ele, se não fosse ele tão mal resolvido e na sua máresoluçãotoda tentar explicar o inexplicável, tentar desossar essa coisa plasmática que a gente tem por baixo da pele, por baixo dos tecidos de todos os órgãos, atrás de todos os longínquos arcos-íris que secretamente se enterram nessas terras hostis que nomeamos de mente. Se não fosse o Freud e aquele bigodinho ridículo, hoje eu teria acordado completamente débil e feliz, tudo bem que com um pouquinho de dor-de-cabeça, mas débil e feliz. Tem coisa melhor do que ser débil e feliz? Sabe, tenho pensado muito sobre isso que chamam de felicidade e tenho concluído que, concluído não porque nesse mundinho ninguém conclui porra nenhuma a não ser quando mentimos, na verdade, tenho apenas deduzido que os únicos felizes são os débeis, quem pensa demais desencanta-se mais, um desencantamento fático, quase naturalista, não não, não é aquela coisa tipo Euclides da Cunha e seu “Sertões” não. É uma coisa mais natural ainda, mais trágica talvez. De qualquer forma, antes que você se canse ou me pergunte quem é esse cara, retomemos ao Freud, se aquele puto tivesse nascido débil e feliz ele não teria feito isso comigo, com a gente. Porque hoje eu acordei golfando aqueles sonhos mal passados que o insolente do meu Id fez questão de acordar e burilar e virar de ponta à cabeça a madrugada inteirinha. A gente, às vezes, acha que as feridas pararam de sangrar, que as cicatrizes desapareceram e um dia desses num sábado qualquer a gente acorda e o infeliz do Id fez questão de trazer tudo à tona novamente. Freud criou incompetentes, cara – um senhor certinho, um vigilante da moral e dos bons costumes e um palhaço gozador – mas todos, cara, todos uns imbecis. Quem pensam que são pra nos manterem presos assim? Eu queria mais, sabe. Queria não ter que acordar e ter raiva dessa coisa espessa e escura que escorre da minha testa e cobre meu corpo de espasmos me fazendo lembrar de tudo que eu julgava esquecido e lançado a tempos nos porões de Hades. Mas, então, agradeçamos ao Freud e aos seus três paus mandados porque não nos permitiram ficar na caverna com os Ídolos de Platão, cortaram nossos grilhões e hoje podemos acordar assim, cara, inteligentes e infelizes e com o Id rondando essas manhãs, que antes eram nossas apenas, que antes não tínhamos a menor chance ou pretensão de converter em nada aqueles resquícios da madrugada ida, que antes eram apenas sonhozinhos e não essas carrancas de olhos largos e dentes pontudos talhadas cuidadosamente por nossos passados presentes.
Recife, sábado, 22 de julho de 2006.
Driko Andrade.
The blues was pouring out of me
Nobody knows, nobody sees”.
Jean-Jeaques Goldman.
Ao som de Billie Hollyday
De lado, sobre o braço direito e olhos fixos no branco desbotado e úmido, sem a menor inspiração e uma enorme dor-de-cabeça conseqüência não sei se do vinho de ontem á noite, da mesmice cotidiana ou dos inúmeros sonhos que tive esta madrugada. Se bem que, na verdade, eu nem sei se foram inúmeros ou se foi apenas um de alcalina duração – a gente nunca sabe de tamanhos ou números não é mesmo? Pelo menos as gentes que nem a gente nunca sabem. Falando em sonhos, aliás, escrevendo sobre sonhos, me dei conta que fazia um tempo que não me lembrava assim com essa nitidez (por sinal chatíssima) de ter tido uma noite assim banhada a sonhos perpendiculares. Mas voltando, voltando não porque nem comecei a dizer ainda, começando a dizer, sim agora tá mais apropriado, começando a dizer eu acordei muito indignado com Freud se não fosse ele, se não fosse ele tão mal resolvido e na sua máresoluçãotoda tentar explicar o inexplicável, tentar desossar essa coisa plasmática que a gente tem por baixo da pele, por baixo dos tecidos de todos os órgãos, atrás de todos os longínquos arcos-íris que secretamente se enterram nessas terras hostis que nomeamos de mente. Se não fosse o Freud e aquele bigodinho ridículo, hoje eu teria acordado completamente débil e feliz, tudo bem que com um pouquinho de dor-de-cabeça, mas débil e feliz. Tem coisa melhor do que ser débil e feliz? Sabe, tenho pensado muito sobre isso que chamam de felicidade e tenho concluído que, concluído não porque nesse mundinho ninguém conclui porra nenhuma a não ser quando mentimos, na verdade, tenho apenas deduzido que os únicos felizes são os débeis, quem pensa demais desencanta-se mais, um desencantamento fático, quase naturalista, não não, não é aquela coisa tipo Euclides da Cunha e seu “Sertões” não. É uma coisa mais natural ainda, mais trágica talvez. De qualquer forma, antes que você se canse ou me pergunte quem é esse cara, retomemos ao Freud, se aquele puto tivesse nascido débil e feliz ele não teria feito isso comigo, com a gente. Porque hoje eu acordei golfando aqueles sonhos mal passados que o insolente do meu Id fez questão de acordar e burilar e virar de ponta à cabeça a madrugada inteirinha. A gente, às vezes, acha que as feridas pararam de sangrar, que as cicatrizes desapareceram e um dia desses num sábado qualquer a gente acorda e o infeliz do Id fez questão de trazer tudo à tona novamente. Freud criou incompetentes, cara – um senhor certinho, um vigilante da moral e dos bons costumes e um palhaço gozador – mas todos, cara, todos uns imbecis. Quem pensam que são pra nos manterem presos assim? Eu queria mais, sabe. Queria não ter que acordar e ter raiva dessa coisa espessa e escura que escorre da minha testa e cobre meu corpo de espasmos me fazendo lembrar de tudo que eu julgava esquecido e lançado a tempos nos porões de Hades. Mas, então, agradeçamos ao Freud e aos seus três paus mandados porque não nos permitiram ficar na caverna com os Ídolos de Platão, cortaram nossos grilhões e hoje podemos acordar assim, cara, inteligentes e infelizes e com o Id rondando essas manhãs, que antes eram nossas apenas, que antes não tínhamos a menor chance ou pretensão de converter em nada aqueles resquícios da madrugada ida, que antes eram apenas sonhozinhos e não essas carrancas de olhos largos e dentes pontudos talhadas cuidadosamente por nossos passados presentes.
Recife, sábado, 22 de julho de 2006.
Driko Andrade.
Senhas e Filas
Sabe que olhando direitinho você não é de toda ruim, meu bem, eu sei que atrás de todas as palavrinhas que você cuidadosamente encaixota diariamente antes de sair de casa deve haver algo de interessante. Eu posso até vê-la com aquela camisolinha pastel, querida, tão branca tão clara tão assim como um feijãozinho com arroz ou aquele ovinho frito do café, você acorda cedo não é? Eu sei que acorda. Tem um sono leve também, acorda fácil. Mas eu não a culpo, pelo menos não por completo, você é só mais uma, queridinha. Mais uma, só isso. Sabe o que nos torna tão díspares? Sabe de que substancia disforme é preenchido esse hiato oceânico que nos separa? De inteligência, meu bem. De autenticidade. Não essa coisa metódica e fria de óculos e lápis entre os dedos numa obediência demonicamente pactual, mas disso de que falo é que são movimentadas minhas veias e banhados todos os meus inúmeros poros já um tanto gastos, disso a que ouso chamar de sinal, honney, de marca, aquele Q a mais que as pessoas dizem por ai. Tudo bem que hoje de nada valem todas as letras de todos os alfabetos de todas as línguas a mais em nossa existência fria. Por isso que também te entendo, meu anjo, eu sei que você só está pegando sua senha e entrando na fila. Sei que você tem que ser essa coisa esguia pendurada na parede da riquinha filha da puta que te comprou. E tão barato, não é meu bem? Ah, mas também não digo isso com pena não tá? Nem quero que pense que me importo. Não dou a mínima se você sofre, meu bem. Eu quero que se foda, honney. Chamo, chamo sim, meu bem. Até porque não conheço outro item lexical melhor para pelo menos tentar chegar perto do que quero dizer. Mas não tenha raiva, querida. Eu quero que se foda sim. Mas quero que se foda porque assim deve ser, porque você não é mais do que um encosto de porta. Dispensable. Sinto informá-la, meu bem, mas você é acessória. Enquanto a mim, mesmo que não tenha seu enorme talento para baixar a cabeça repetidas vezes como uma bolinha de borracha na mão de uma criança qualquer, permaneço com essa coisa latente pulsando nas minhas veias. Sabe, querida, eu queria até te dizer uma coisa antes de ir. Antes que você morra de vez e eu continui com todas as letras a mais. Acho você meio puta sabe. Não não quero te ofender. Mas consideremos a palavra puta num sentido mais romântico. Não não, não precisa mudar a pronúncia porque puta é puta e pronto. Mas é assim, meu anjo, você se vende tanto, se entrega tanto a tudo que é tão frio e nem tenta nos aquecer, se aquecer. O que te falta é o beijo, querida. Acho que seu Q a menos está ai contido. Eu sei eu sei. Sei que quando bater aquela porta atrás da gente você vai continuar assim lápide, puta e inbeijável. Mas precisava te dizer isso. Sinto muito. Não por você. Claro que não, meu anjo. Menos ainda por mim. Mas pelas inúmeras senhas que ainda serão distribuídas nessa imensa fila.
Recife, 27 de Julho de 2006.
Driko Andrade.
Recife, 27 de Julho de 2006.
Driko Andrade.
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