quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sobrevivência


Para ler ao som de "You fucked my soul", de Jana Figarella

Essa ressaca que não passa
São os restos teus
Que grudaram no fígado
Impedindo o corpo a continuar

Esse eco fechado nos ouvidos
São as palavras cruas
Que disseste sem pensar
E ainda espetam os sentidos

Essa parte devastada de mim
São as trincheiras rasgadas
No meu peito aberto
Esperando cicatrizar

Esse gosto amargo na boca
São os últimos instantes
Que a língua concedeu
Antes do amor acabar

Recife, 19 de fevereiro de 2012.

Adriano Andrade


Nudez

Preso a canções / Entregue a paixões / Que nunca tiveram fim / Vou me encontrar / Longe do meu lugar / Eu caçador de mim” Milton Nascimento

O gosto de pele branca
Ainda escorre da língua
Fazendo o corpo tremer
Noite abafada de verão
Quase sábado nos lábios
Latas vazias pela sala
Cinzeiro saciado no chão
Coxas entreabertas na mão
Conduziam teu coração
Pelos caminhos traiçoeiros
Foz de todas as paixões
Sem medo nojo ou pena
Como se Amar fosse dom
Herança marcada a ferro
Seta perdida de antemão
Vizinhos atentos na parede
Posições divididas na cama
Lençóis manchados de branco
Diluindo o prazer escancarado
O gosto de pele branca
Ainda escorre da língua
Fazendo o corpo tremer

Recife, 23 de fevereiro de 2012.

Adriano Andrade

Fatias


“O que nos torna presos veio nos libertar” Isabella Moraes

Não há mais dor
Só pedaço de cor
Latente
Sob a pele esguia

Não há mais dor
Apenas lembrancinha
Miúda
Guardada longe no peito

Não há mais dor
Só copo vazio
Esquecido
Nas coisas que sobraram

Não há mais dor
Apenas moldura escura
Mofada
No canto da sala de estar

Não há mais dor
Somente dias sozinho
Vagarosos
Como teu ritmo de mudar

Não há mais dor
Mas desejo de tentar
Desconfiado
Tateando a vida que virá

Não há mais dor
Somente grito mudo
Escondido
Na gaveta que foi tua

Não há mais dor
Só desocupação
Inerte
Esperando o tempo virar

Recife, 23 de fevereiro de 2012.

Adriano Andrade

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A Impressionante Jornada de Norma Jeane da Silva

Capítulo II - Vestido Novo

D. Amélia era uma forte candidata a primeira santa do país. Viúva de dono de engenho. Tinha saudades da época em que podia chicotear os negrinhos pela vontade de Deus. Assistiu de camarote o nascimento de Norma Jeane. Segurou-a pelos pés, levantou um pouco a cabeça, olhou devagar aquela pobre criatura banhada de sangue, ponderou alguns instantes e sem maiores ensaios disse - "Eu fico com ela!". A Paróquia toda orgulhosa vestiu-se de aplausos e elogios à D. Amélia - uma santa, todos diziam. Foi assim que Norma Jeane foi morar na Várzea. Era um bairro há poucos km do centro da cidade, casarões antigos, praças cheias de árvores, famílias de nome e um ar pesado de progresso por conta do projeto de construção de uma universidade nas redondezas - coisa que D. Amélia odiava. Norma Jeane crescia lenta. Suas pontas e arestas eram cuidadosamente aparadas todos os dias pelas mãos trêmulas de D. Amélia. Norma Jeane dormia num quartinho no fundo do quintal da casa. Tudo ali cheirava a velho. D. Amélia, o casarão com eira e beira, os cristais, os azulejos portugueses, os retratos na parede, Norma Jeane. Além das duas, o casarão abrigava o Velho Jorge. Empregado mestiço da época em que o marido de D. Amélia andava a cavalo, caçando as filhas dos empregados do engenho. Quando Norma Jeane fez 7 anos, D. Amélia a levou pela primeira vez numa costureira - D. Zefinha de Palmares. Nunca até aquele momento Norma Jeane havia vestido uma roupa nova. D. Amélia era super ecológica, reciclava tudo. Norma Jeane encheu o rosto-magro de vermelho e improvisou um sorriso quando viu D. Zefinha coberta de tecidos e fitas coloridas. Já podia se imaginar correndo entre os pés de jambo, embolando nas folhas caídas dos ipês-amarelos, com seu vestido branco, delicadamente ornado de fitas de cetim dourado, as mesmas fitas que delicadamente iriam também prender os cabelos desgrenhados. Enquanto isso, D. Amélia tirava um retalho de chita preta da bolsa e dava as instruções para D. Zefinha - "Quero isso pronto até sexta viu, Zefinha? Essa menina tem que estar decente quando Nequinho chegar". "Pode deixar", respondeu Zefinha, "Vai ficar uma empregadinha linda". "Acho bom mesmo. Até sexta!". "Até".

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A Impressionante Jornada de Norma Jeane da Silva

Capítulo I - Filha da Puta

Luiza saiu corrida de Catende. Filha de usineiro, única irmã entre sete filhos, foi inventar logo de cair nos braços do filho negrinho do encarregado da usina. Cidade pequena, no Nordeste, preceitos caídos de velho de uma aristrocracia em decadência: só deu Luiza na jogada. Foi açoitada em praça pública só por ter cometido o pecado mortal do gozo em voz alta. Quem mandou fazer barulho no canavial neh, Luiza! A coitada não teve nem o direito de levar os vestidos de renda francesa que seu todo-poderoso-pai mandava vir da capital. E falando em capital é pra lá mesmo que Luiza se mandou. Moça educada, prendada, de família abastada, não iria ficar na rua. Foi logo levada por uma antiga empregada da família à casa de D. Elza Beltrão. Senhora de muitos contatos na cidade, com certeza Luiza iria se dar bem. A casa de Elza, como todo mundo chamava, era a mais frequentada da Barão do Rio Branco, no Bairro do Recife. Eram comerciantes, deputados, homens da lei, engenheiros da alemanha, estudantes de direito e pais de família que gastavam o que podiam e não podiam para ter o prazer da compania das meninas de D. Elza. Luiza mal tinha completado 17 anos quando chegou. Coisinha novinha - virou logo a mais procurada da casa. D. Elza fazia questão de dizer que Luiza era filha de usineiro e tinha uma sólida educação cristã. Não sei se funcionava como propoganda, mas o fato é que muitos homens entravam e saiam sem parar do quarto de Luiza e ela sempre estava de joelhos na cama. Devia ser mesmo uma cristã fervorosa. Os anos se passaram e Luiza consolidara seu patamar de destaque entre as quengas do bairro velho - assim como eram chamadas pelas beatas da Igreja da Madre de Deus. Tanto sucesso nunca vem desacompanhado. Luiza começava a incomodar as colegas de métier. As coisas só fizeram piorar depois que Luiza se engraçou com um tal de Guilherme de Andrade Lima, recém chegado do Rio de Janeiro. Ninguém sabia ao certo o que fazia aqui e nem como vivia. Assim como apareceu, sumiu sem deixar rastro. Quer dizer... deixou com Luiza, mas isso ela só iria perceber alguns meses depois de vários enjôos e desejos esquisitos. D. Elza ficou puta da vida. Emora isso ela já fosse mesmo. Tentou chá da borra de café, garrafada-forte do Preto Velho do Mercado de São José, banho de maré à noite e nada. Não teve jeito. Com o bucho pela boca, Luiza lembrou de ir à igreja, rezar para Nossa Senhora do Bom Parto. Era um domingo de manhãnzinha. O sol era tenro e a brisa era de setembro manso. Luiza caminhava só. Sempre caminhou. No segundo mesmo em que seus pés alcançavam a porta da Nave Central, Luiza ouviu o grito - "quenga do Rio Branco"! Quando virou-se, costas pro altar, mal deu tempo de reconhecer a face que lhe empunhava uma peixeira entre os seios-fartos. A face era de Maria Homem - sapatão que fazia a segurança da casa de Joana Veludo, concorrente direta de D. Elza na região. Luiza caiu pesada no chão. Rios de sangue sobre o vestido de renda francesa. Luiza olhou pro céu uma última vez, procurou as últimas forças no ventre e abriu as pernas para que Norma Jeane vivesse.            

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A Impressionante Jornada de Norma Jeane da Silva

PRELÚDIO

Ela sentia-se só. Sentia-se tão só que era capaz de morrer a qualquer momento, sem choro nem velas. Era domingo e ela sabia que os domingos eram terríveis para as gentes como ela. Então de súbito decidiu: vou. Sem pestanejar, arrumou-se toda. Vestido fuxico-agreste, batom vermelho, sandálias de couro, colônia de bebê, papoula na orelha e óculos escuros - sim, os oculos escuros eram indispensáveis, como ela costuma pensar. Totalmente entregue a sí, deu as costas pra casa de subúrbio-longe e tomou um gole fresco de ar-sujo. O mundo fora tornara-se o mundo dentro. Massa inerte. Movimentos imperceptíveis. Redoma de vidro.  Aquário de um peixe só.    

terça-feira, 31 de maio de 2011

Another Day in Paradise

E ainda há tempo de olhar no espelho, chegar bem perto e dizer: eu sou isso?
"     "      "      "      "      "    "         "            "       "        "    "    "   : eu sou isso!

Maio já está no final e o que fizemos com aquilo que planejamos em dezembro? Houve comemorações depois do Carnaval ou o Rei Momo, agora devidamente plastificado e magro, encerrou tudo nos idos de fevereiro? Viver só faz sentido quando a acomodação é ausente e a falta inerente. Com ou sem rima, agora mais que nunca é preciso prosseguir. É preciso ir em frente porque daqui a pouco é julho e haverão tantas crianças maleducadas nos shoppings e nas praias sujas dessa cidade. É preciso ir em frente porque julho é mês de lembrar que não sou mais o menino esguio que andava com Klara, Rafinha e cia pelas noites do Recife Antigo, aquele menino que se vestia de preto e sem pensar em nada pensava em tudo. Julho será mês de lembrar que a adolescência já era e que daquele tempo Klara e Rafinha parmanecem em carne-viva, já os outros - a cia - deixaram de se abrigar na minha memória há tempos. Julho será o mês de perceber o quando mudei, o quanto não mudei, o quando quero mudar e o quanto não quero mudar. Mas, por enquanto, vamos dar adeus a maio e torcer pra que junho venha suave, pra que a violência alheia poupe nossos olhos e que essa cidade, esse país, esse mundo acorde sua vocação para o bem e para a luz.