Capítulo I - Filha da Puta
Luiza saiu corrida de Catende. Filha de usineiro, única irmã entre sete filhos, foi inventar logo de cair nos braços do filho negrinho do encarregado da usina. Cidade pequena, no Nordeste, preceitos caídos de velho de uma aristrocracia em decadência: só deu Luiza na jogada. Foi açoitada em praça pública só por ter cometido o pecado mortal do gozo em voz alta. Quem mandou fazer barulho no canavial neh, Luiza! A coitada não teve nem o direito de levar os vestidos de renda francesa que seu todo-poderoso-pai mandava vir da capital. E falando em capital é pra lá mesmo que Luiza se mandou. Moça educada, prendada, de família abastada, não iria ficar na rua. Foi logo levada por uma antiga empregada da família à casa de D. Elza Beltrão. Senhora de muitos contatos na cidade, com certeza Luiza iria se dar bem. A casa de Elza, como todo mundo chamava, era a mais frequentada da Barão do Rio Branco, no Bairro do Recife. Eram comerciantes, deputados, homens da lei, engenheiros da alemanha, estudantes de direito e pais de família que gastavam o que podiam e não podiam para ter o prazer da compania das meninas de D. Elza. Luiza mal tinha completado 17 anos quando chegou. Coisinha novinha - virou logo a mais procurada da casa. D. Elza fazia questão de dizer que Luiza era filha de usineiro e tinha uma sólida educação cristã. Não sei se funcionava como propoganda, mas o fato é que muitos homens entravam e saiam sem parar do quarto de Luiza e ela sempre estava de joelhos na cama. Devia ser mesmo uma cristã fervorosa. Os anos se passaram e Luiza consolidara seu patamar de destaque entre as quengas do bairro velho - assim como eram chamadas pelas beatas da Igreja da Madre de Deus. Tanto sucesso nunca vem desacompanhado. Luiza começava a incomodar as colegas de métier. As coisas só fizeram piorar depois que Luiza se engraçou com um tal de Guilherme de Andrade Lima, recém chegado do Rio de Janeiro. Ninguém sabia ao certo o que fazia aqui e nem como vivia. Assim como apareceu, sumiu sem deixar rastro. Quer dizer... deixou com Luiza, mas isso ela só iria perceber alguns meses depois de vários enjôos e desejos esquisitos. D. Elza ficou puta da vida. Emora isso ela já fosse mesmo. Tentou chá da borra de café, garrafada-forte do Preto Velho do Mercado de São José, banho de maré à noite e nada. Não teve jeito. Com o bucho pela boca, Luiza lembrou de ir à igreja, rezar para Nossa Senhora do Bom Parto. Era um domingo de manhãnzinha. O sol era tenro e a brisa era de setembro manso. Luiza caminhava só. Sempre caminhou. No segundo mesmo em que seus pés alcançavam a porta da Nave Central, Luiza ouviu o grito - "quenga do Rio Branco"! Quando virou-se, costas pro altar, mal deu tempo de reconhecer a face que lhe empunhava uma peixeira entre os seios-fartos. A face era de Maria Homem - sapatão que fazia a segurança da casa de Joana Veludo, concorrente direta de D. Elza na região. Luiza caiu pesada no chão. Rios de sangue sobre o vestido de renda francesa. Luiza olhou pro céu uma última vez, procurou as últimas forças no ventre e abriu as pernas para que Norma Jeane vivesse.
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