Sabe que olhando direitinho você não é de toda ruim, meu bem, eu sei que atrás de todas as palavrinhas que você cuidadosamente encaixota diariamente antes de sair de casa deve haver algo de interessante. Eu posso até vê-la com aquela camisolinha pastel, querida, tão branca tão clara tão assim como um feijãozinho com arroz ou aquele ovinho frito do café, você acorda cedo não é? Eu sei que acorda. Tem um sono leve também, acorda fácil. Mas eu não a culpo, pelo menos não por completo, você é só mais uma, queridinha. Mais uma, só isso. Sabe o que nos torna tão díspares? Sabe de que substancia disforme é preenchido esse hiato oceânico que nos separa? De inteligência, meu bem. De autenticidade. Não essa coisa metódica e fria de óculos e lápis entre os dedos numa obediência demonicamente pactual, mas disso de que falo é que são movimentadas minhas veias e banhados todos os meus inúmeros poros já um tanto gastos, disso a que ouso chamar de sinal, honney, de marca, aquele Q a mais que as pessoas dizem por ai. Tudo bem que hoje de nada valem todas as letras de todos os alfabetos de todas as línguas a mais em nossa existência fria. Por isso que também te entendo, meu anjo, eu sei que você só está pegando sua senha e entrando na fila. Sei que você tem que ser essa coisa esguia pendurada na parede da riquinha filha da puta que te comprou. E tão barato, não é meu bem? Ah, mas também não digo isso com pena não tá? Nem quero que pense que me importo. Não dou a mínima se você sofre, meu bem. Eu quero que se foda, honney. Chamo, chamo sim, meu bem. Até porque não conheço outro item lexical melhor para pelo menos tentar chegar perto do que quero dizer. Mas não tenha raiva, querida. Eu quero que se foda sim. Mas quero que se foda porque assim deve ser, porque você não é mais do que um encosto de porta. Dispensable. Sinto informá-la, meu bem, mas você é acessória. Enquanto a mim, mesmo que não tenha seu enorme talento para baixar a cabeça repetidas vezes como uma bolinha de borracha na mão de uma criança qualquer, permaneço com essa coisa latente pulsando nas minhas veias. Sabe, querida, eu queria até te dizer uma coisa antes de ir. Antes que você morra de vez e eu continui com todas as letras a mais. Acho você meio puta sabe. Não não quero te ofender. Mas consideremos a palavra puta num sentido mais romântico. Não não, não precisa mudar a pronúncia porque puta é puta e pronto. Mas é assim, meu anjo, você se vende tanto, se entrega tanto a tudo que é tão frio e nem tenta nos aquecer, se aquecer. O que te falta é o beijo, querida. Acho que seu Q a menos está ai contido. Eu sei eu sei. Sei que quando bater aquela porta atrás da gente você vai continuar assim lápide, puta e inbeijável. Mas precisava te dizer isso. Sinto muito. Não por você. Claro que não, meu anjo. Menos ainda por mim. Mas pelas inúmeras senhas que ainda serão distribuídas nessa imensa fila.
Recife, 27 de Julho de 2006.
Driko Andrade.
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