sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Aquela Noite

Porque no espelho os monstros sempre se mostram.

Cheguei às 9 depois de uma Sessão de Arte enfadonha e uma costumeira companhia não menos chata. O banho frio e o café morno de sempre antes de deitar e fugir novamente – digo, tentar. Estava fria aquela noite – não porque estivesse chovendo ou algo parecido, não porque as outras eram quentes, mas de algum modo, por uma razão inexplicavelmente invulgar estava mais fria que o de costume aquela noite. Preciso trocar os lençóis, penso num mesmo instante que vem à tona, em meio a devaneios desconexos, que ainda é segunda. Mas o que importa se todos os dias eram segundas agora, até mesmo os, como dizem, domingos quando não preciso fingir parecem segundas e já faz algum tempo isso. O cheiro de cânfora queimando no ar parecia tornar o tempo ainda mais gelado e um pouco mais real. Só então a lembrança da noite passada me chega forte como uma seta guiada direto ao ego ainda aceso. O Monstro Branco me visitou 3 vezes a noite passada. Ele – a dupla-face da inexistência de qualquer verdade. Ele – a beleza imunda de toda uma superficialidade pulsante. Ele – com sua grande máscara cintilante tão pregada ao rosto quanto a própria pele. Ele – o grande vazio que permeia uma mente de Etiquetas Sublinhadas e Melodias Fáceis. Ele – o Monstro Branco. Seu sorriso branco (talvez mais ainda que seu corpo grande, belo e completamente branco) espelhando meu rosto frágil e sutil como a moldura de um quadro famoso que ninguém presta atenção. Meus detalhes ricos em perfeição mesmo aparentes nunca se mostram à primeira olhada. Seu hálito de Monstro branco e quente na minha nuca fria tentando imprimir sua marca de besta e sugar de mim o precioso néctar de seu desejo, o líquido vital em que atordoa sua sede branca. Seus olhos de índigo profundo e cortante atirando porções de vidro quebrado sobre mim enquanto me contorce em suas mãos trêmulas e brancas. Seus cabelos em chamas percorrem a superfície de minhas costas nuas como quem procura o preciso X num mapa antigo. Tento desesperadamente me libertar de seu cativeiro, mas seus braços são mais fortes e mais brancos que os meus. A batalha estaria sempre perdida, o Monstro Branco sabe exatamente como me apanhar, mesmo que me enterre nas trincheiras mais profundas da alma ele sempre sabe onde me escondo e quase sem nenhum esforço me mantém preso ao seu Destino. Sua boca vermelha entornada por sulcos milenarmente intactos e brancos me espreita de lado e aguarda o amolecer completo de meu corpo esguio, até que possa me engolir por inteiro. Até que possa me digerir de uma única vez várias vezes sem nenhuma pausa. E então me vomite do seu seio aberto e branco e me plante novamente aos pés de sua enorme Sombra Branca. O pequeno marca 11, o médio teso em 12 e o maior em algum ponto entre 1 e 2. Uma hora para a primeira segunda terminar, uma hora para a segunda começar. Acho que Ele não virá hoje. Sua sede morta deve ressuscitar seis vezes antes da Lua Cheia, então borbulhando ele acorda e vem a mim como um predador nato e hostil e branco. Deitado de bruços sobre os braços, sei que amanhã é segunda, que é preciso fingir novamente, que o Monstro Branco dorme em silêncio, mas me espera ao anoitecer.

Recife, segunda-feira, 24 de Outubro de 2005

Driko Andrade.

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