sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Três Paus Mandados

“I wake up this morning, baby
The blues was pouring out of me
Nobody knows, nobody sees”.

Jean-Jeaques Goldman.


Ao som de Billie Hollyday

De lado, sobre o braço direito e olhos fixos no branco desbotado e úmido, sem a menor inspiração e uma enorme dor-de-cabeça conseqüência não sei se do vinho de ontem á noite, da mesmice cotidiana ou dos inúmeros sonhos que tive esta madrugada. Se bem que, na verdade, eu nem sei se foram inúmeros ou se foi apenas um de alcalina duração – a gente nunca sabe de tamanhos ou números não é mesmo? Pelo menos as gentes que nem a gente nunca sabem. Falando em sonhos, aliás, escrevendo sobre sonhos, me dei conta que fazia um tempo que não me lembrava assim com essa nitidez (por sinal chatíssima) de ter tido uma noite assim banhada a sonhos perpendiculares. Mas voltando, voltando não porque nem comecei a dizer ainda, começando a dizer, sim agora tá mais apropriado, começando a dizer eu acordei muito indignado com Freud se não fosse ele, se não fosse ele tão mal resolvido e na sua máresoluçãotoda tentar explicar o inexplicável, tentar desossar essa coisa plasmática que a gente tem por baixo da pele, por baixo dos tecidos de todos os órgãos, atrás de todos os longínquos arcos-íris que secretamente se enterram nessas terras hostis que nomeamos de mente. Se não fosse o Freud e aquele bigodinho ridículo, hoje eu teria acordado completamente débil e feliz, tudo bem que com um pouquinho de dor-de-cabeça, mas débil e feliz. Tem coisa melhor do que ser débil e feliz? Sabe, tenho pensado muito sobre isso que chamam de felicidade e tenho concluído que, concluído não porque nesse mundinho ninguém conclui porra nenhuma a não ser quando mentimos, na verdade, tenho apenas deduzido que os únicos felizes são os débeis, quem pensa demais desencanta-se mais, um desencantamento fático, quase naturalista, não não, não é aquela coisa tipo Euclides da Cunha e seu “Sertões” não. É uma coisa mais natural ainda, mais trágica talvez. De qualquer forma, antes que você se canse ou me pergunte quem é esse cara, retomemos ao Freud, se aquele puto tivesse nascido débil e feliz ele não teria feito isso comigo, com a gente. Porque hoje eu acordei golfando aqueles sonhos mal passados que o insolente do meu Id fez questão de acordar e burilar e virar de ponta à cabeça a madrugada inteirinha. A gente, às vezes, acha que as feridas pararam de sangrar, que as cicatrizes desapareceram e um dia desses num sábado qualquer a gente acorda e o infeliz do Id fez questão de trazer tudo à tona novamente. Freud criou incompetentes, cara – um senhor certinho, um vigilante da moral e dos bons costumes e um palhaço gozador – mas todos, cara, todos uns imbecis. Quem pensam que são pra nos manterem presos assim? Eu queria mais, sabe. Queria não ter que acordar e ter raiva dessa coisa espessa e escura que escorre da minha testa e cobre meu corpo de espasmos me fazendo lembrar de tudo que eu julgava esquecido e lançado a tempos nos porões de Hades. Mas, então, agradeçamos ao Freud e aos seus três paus mandados porque não nos permitiram ficar na caverna com os Ídolos de Platão, cortaram nossos grilhões e hoje podemos acordar assim, cara, inteligentes e infelizes e com o Id rondando essas manhãs, que antes eram nossas apenas, que antes não tínhamos a menor chance ou pretensão de converter em nada aqueles resquícios da madrugada ida, que antes eram apenas sonhozinhos e não essas carrancas de olhos largos e dentes pontudos talhadas cuidadosamente por nossos passados presentes.

Recife, sábado, 22 de julho de 2006.

Driko Andrade.

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